NO MAR DA BAHIA - CONTOS ARTESCLUB


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No Mar da Bahia - Hélio Pólvora

No Mar da Bahia
Hélio Pólvora
 
 

     Ouviu-se um apito — menos que um apito, um breve murmúrio. O navio mexeu-se qual sombra trêmula por baixo dos guindastes perfilados. Ruídos de cordas arrastadas sobre ferros, vultos espreitando na amurada. O velho foi o último a subir. Agarrado ao corrimão, assustou-se com o pipocar do motor, que logo entraria em ritmo cadenciado. O Elevador Lacerda destacou-se numa súbita explosão de branco. O Forte ia ficando para trás, a ilha de Itaparica alongou a esguia silhueta na névoa. Espreguiçadeiras foram armadas no convés. E o Aragipe, barco pequeno que havia saído de Aracaju em demanda dos portos do sul da Bahia, para carregar couros, cacau e piaçaba, deslizou barra a fora quase sem rumor, como se puxado pela maré, quieto e fugidio.

Agora o velho recebia no peito a força do vento molhado — um vento que lhe deixava nos pulmões um odor de peixe ardido. Arrastou a mala, por entre rolos de cordas e barcos salva-vidas. Submarinos alemães metiam a pique barcos cargueiros no litoral da Bahia. Se o submarino invisível lançasse naquele instante o petardo, escaleres seriam arriados; assim pequenos não dariam para todos os passageiros, só os mais fortes se salvariam.

Mas ainda era cedo, o Aragipe mal começava a trotar dentro da baía e, além disso, os alemães não ousariam desafiar belonaves americanas em águas costeiras. O velho passou pelas espreguiçadeiras abertas, sentindo o chão fugir-lhe aos pés. Os rostos dos companheiros, na proa, começavam a azular-se. Alguém narrava uma história de naufrágio.

— O torpedo atravessou o navio de lado a lado. 

Contava aos pedaços para gozar o efeito nos ouvintes. Uma pausa, um chupão no cigarro, outro avanço:

— O capitão mandou que as mulheres, donzelas e casadas, tirassem a roupa.

— A roupa toda?

— Sim. Para os marinheiros passarem graxa no corpo. Elas tinham de sair espremidas pelas vigias dos camarotes. 

— E não podiam sair por cima, pelo convés ?

— Podiam não. O navio tinha virado de banda. 

Fumavam com o pensamento nas mulheres engraxadas pelos marinheiros. O velho apontou a mala, perguntou onde ficava o beliche. 

— O beliche é de nós todos. Cada um dorme um pouco. Já quer se deitar ?

O velho desceu uma escada quase vertical e mergulhou num cheiro quente de enjôo. Encontrou um camarote. Havia um beliche vago. Ajeitou o travesseiro, dobrou o casaco, tirou as botinas e ficou de meias. Escolheu um folheto de cordel e se espichou. O beliche parecia uma rede violentamente agitada. Leu algumas páginas que lembravam as façanhas de Lampião. Acabou abandonando o cordel que lhe devolvia em parte os ardores da juventude. As letras dançavam, as estrofes subiam e desciam no peito agoniado do Aragipe. Mudou de posição. O navio afocinhava o mar. 

Nesse navio, pensa o velho, há sons dolorosos, gemidos de cordas e sussurrar de água sulcada que não me deixam dormir. E solta está a vigia do camarote: cada vez que o Aragipe mete o focinho no mar, cavando uma profunda esteira por onde melhor escorregar o dorso, a roda de ferro gira nos gonzos, abre-se e fecha com um baque. E eu, então, quando ela se abre, vejo os vagalhões subirem para malhar o costado; outros se formam adiante e crescem e rodam e espumejam feridos pela quilha. Parece que é madrugada, um nascer de dia sem vento, quente e sufocante como o penoso arfar do Aragipe. 

Provavelmente os submarinos alemães, compridos e lisos como esqualos, espreitam a costa, afugentam peixes. Acho que falei em peixes, mas pensando estava em cavalos mordidos por muitas cicatrizes. A culpa é do calor, dessas línguas de fogo que sobem do mar e envolvem o Aragipe. Se fosse um saveiro, um desses barcos de madeira carregados de cerâmica pelos mares do Recôncavo, dele restariam cinzas, o destroço fumegante do mastro. Mas o Aragipe tem ventre de ferro, resiste à combustão que acende sobre o mar um gêiser imenso. E se o vento já não sopra é porque morreu com aquele mesmo chiado de sal atirado sobre brasas. 

Há uma guerra na Europa. No deserto africano, Mr Churchill regula o binóculo de campanha e procura alemães. Alguém no deserto, Mr Churchill ? Aqui e agora nós navegamos, seguidos por um cardume de golfinhos. O torpedo não vem. mas talvez esteja a caminho, correndo à flor da água em ebulição. Teriam calculado bem o alvo ? Atenção, Hans e Fritz, é preciso mandá-lo com um silvo certeiro antes que os grandes peixes mastiguem o mastro e engulam a proa. Prometo um mergulho rápido, uma descida vertical àquelas regiões onde os camponeses fizeram uma excelente plantação de líquens. Pois estamos na estação das chuvas, chegou a hora da colheita. Moças, onde estão os cestos ? Vamos rodopiar e cantar e colher os líquens; vamos catalogar as ostras. Se esses líquens e algas e musgos não forem colhidos e postos a secar, perdida estará toda a safra. A Europa não pode esperar: sofre os rigores do inverno e precisa de muito líquen para torrar e beber quente antes de retornar às trincheiras.

Se eu me levantar e andar até o fim deste corredor encerado onde agora me deito (será mesmo que fiz todos esses movimentos difíceis ?), de bruços estarei sobre o mar. Posso até lavar o rosto nas ondas. O que não consigo justificar é a preferência das mulheres por leves roupas de verão, porque no mar existe apenas a estação chuvosa, propícia ao crescimento e floração das algas. 

— É um absurdo deixarem este velho dormir no chão do corredor. 

Alguém fala e não há nenhum mistério nisso, que de palavras se alimentam os homens. Bem, o mar é bastante vasto para todos nós, e ao longe a terra avança. O sol vai alto, a guerra acabou e o camponês Dmitri fuma cachimbo enquanto remove a ferrugem do arado. E nos vinhedos da França moças chegam com baldes para a colheita da uva, porém é muito tarde: o sol secou-a. A guerra acabou e eu procuro um lugar para deitar-me. É justo, quero dormir algumas horas. 

Esses dois russos sentados no convés parecem pai e filho, mas que diabo fazem aqui e por que cantam com voz tão profunda ? Seus campos já fermentaram e abrem-se agora em largas feridas sob o relho do arado. Senhores, não é hora de navegar; senhores, apanhem as ferramentas, porque chegou o momento de semear. Vejo que não se mexem nem param a canção. Talvez ignorem que viajam num arado de lâmina afiada. Ei-lo escavando o solo e desenterrando monstros marinhos apodrecidos. Um arado é um quadrúpede. Nossas vidas dependem desse quadrúpede grosseiro em cujo pescoço amontoaram rolos de cordas. Que todos se aprumem e não soltem as crinas. Oxalá eu possa saltar dos estribos, são e salvo, no pátio onde outrora cresciam girassóis. 

Tenho as mãos feridas, sinto-as talvez ensangüentadas, mas não largo as crinas da besta que avança aos pinotes, afunda a cabeça e a ergue coroada de espuma. Estamos há três dias e três noites nesse dorido navegar; as amarras foram recolhidas em algum ponto do setentrião, logo depois que nós, parados no cais, dissimulados na sombra dos armazéns, perto dos guindastes frios, ouvimos um apito — menos que isso, um murmúrio do Aragipe, um cochicho. Éramos algumas sombras que o barco arrebanhava antes de recolher a prancha e soltar-se do molhe. 

Soltou-se sem ruído, de luzes apagadas, e se afastou como quem foge, quase que à deriva. Não estalava as juntas do madeirame nem curvava o espinhaço ou arremetia de proa baixa. Na ponta dos pés, qual esquiva bailarina, ele acompanhava as sinuosidades da costa. Se algum submarino alemão lhe rasgasse o ventre com um torpedo, os escaleres seriam arriados e os náufragos poderiam chegar a terra firme e improvisar missa em ação de graças. Na amurada, perscrutando os primeiros rubores da aurora, nós recebíamos no peito e no rosto a força do vento molhado, sentíamos na pele um gosto de escama de peixe. 

Navios torpedeados deitavam-se de lado antes de submergir —era o que o homem contava no convés. Talvez quisesse passar como sobrevivente da aventura para os ouvintes identificados apenas pelas brasas dos cigarros que riscavam o ar como minúsculos tições. Talvez houvesse lido a descrição no jornal — ou muito tempo atrás, antes que a guerra estalasse na Europa e se propagasse ao Pacífico, ele tivesse visto da praia de Ilhéus o Itacaré adernar e afundar-se antes de entrar na barra. Aquele mesmo Itacaré que levava para nós, meninos, o último episódio do seriado O Guarda Vingador. Ou, quem sabe, o narrador teria apanhado no bar, em conversas típicas de fim de tarde, aquelas peripécias de salvamento, marinheiros que passavam graxa no corpo nu de mulheres para que elas escapassem pelas vigias. 

Com certeza o tempo escorreu ocultamente, porque esta noite já não parece a mesma e o velho se descobre num estreito beliche. Golpes de vento abrem e fecham a vigia em baques surdos, pedaços lívidos de mar sobem e descem e a navalha do frio parece haver saído de uma salmoura. O velho tenta ler versos sobre as proezas de Lampião e seu bando, mas as letras se embaralham, formam combinações bizarras. Uma mulher nauseada pede-lhe o incômodo de ir buscar um copo de água. Deve ter andado muito pelo Aragipe, em busca do secreto lugar onde guardam água potável. Com certeza descansou no caminho, entre cordas e cabos, ou adormeceu sobre a lona da coberta, ao embalo de uma canção que dois russos arrancavam do fundo do peito. O velho acha que se perdeu durante horas num longo corredor com portinholas, chegou a respirar o hálito esbraseado da caldeira. Dias e noites que pareceram correr juntos, somente as estrelas ficaram imperturbáveis. E eis que outro dia se eleva sobre o mar, descorado como árvores lavadas, e ele o vê nascer com um estremecimento de alívio e náusea. O Aragipe aquieta-se agora sobre águas mais tranqüïlas do porto do sul que exporta piaçaba, cacau e couros. De cima do rolo de cordas, na proa, onde afundou as mãos até deixá-las entorpecidas, recurvas e vincadas, ele contempla o casario baixo, derrama o olhar sobre o morro, o farol, a praia, a ilha, as jangadas de velas desdobradas. Ouve ordens de manobras para o navio fundear. Recolhe a mala. A prancha é o último caminho que lhe resta percorrer entre o mar e a terra, entre passado, presente e futuro. Sente a terra calçada de pedras negras ondear, arremeter e retroceder. Alguém o ampara.

— Arrebentaram o homem.

— Saiu moço, voltou um caco — comenta a vendedora de acarajés.

— Ele foi do bando de Lampião ? — quer saber o rapaz dos roletes de cana.

— Foi não. Acho que chefiou a jagunçada de Horácio de Mattos.

— Mentira. Ele andou com o Conselheiro em Canudos.

— Isso foi depois. Então vosmicês não sabem que ele voltou ferido da guerra ? — diz, com uma cusparada, o negro engraxate. 
 

                                                                    (Hélio Pólvora)


 
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